PARADIGMA DA PRESENÇA

CURADORIA DENIS RODRIGUEZ

DE 24 DE MAIO A 17 DE JUNHO

QUARTA À SÁBADO, DAS 14H ÀS 19H

CARINA SEHN

ELEN BRAGA

CARLA BORBA

RUBIANE MAIA

MARION VELASCO

LIANA PADILHA

BRUNO MENDONÇA

ANDRESSA CANTERGIANI

CIBELLE CAVALLI BASTOS

CATÁLOGO PPPP

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Gosto de pensar a performance como os hispano hablantes, ou seja, como a instalação feita ao vivo, ou a arte da ação, na qual xs artistas se integram a instalação como dispositivo ou formam o núcleo essencial dessa categoria. Nesse campo complexo nomeado como performance, cuja a reprodutibilidade é complicada, e sempre renovada pelas circunstâncias de espaço-tempo e dos sujeitos – tanto os que se apresentam, como os que assistem ou participam – o que realmente importa não é a materialidade que se produz nessas apresentações e sim a gama de efeitos e experiências que essas práticas geram. Da perplexidade a desorientação, da rejeição ao asco, do ativismo a inércia, da poesia ao tédio, do divertimento a indiferença, participar de uma performance é perceber a unicidade da presença e sua força contagiante. Guattari afirmou que a única finalidade aceitável da atividade humana é a produção de subjetividade, eternamente enriquecedora de nossa relação com o mundo. E é nisto em que se traduzem as práticas performativas, nas quais seus criadores buscam novas formas de existir no mundo ao invés de produzir objetos; eles utilizam a vida e o tempo como matérias-primas.

 

Colocar a ética antes do conhecimento como na filosofia do francês, nascido na Lituânia, Emmanuel Levinas, parece ter sido a tônica das práticas performativas que aconteceram durante todo o segundo semestre de 2016 e o mês de março de 2017 na galeria Península, resultado das residências do Programa Público de Performance Península, o PPPP, também conhecido como laboratório de práticas contemporâneas, parâmetro da Estética Relacional proposta por Nicolas Bourriaud. Seria possível não ser relacional na performance? Essa categoria na qual a materialidade estética frequentemente cede aos efeitos da presença e da participação.

 

As residências colaborativas do PPPP demarcaram um território próprio num espaço híbrido voltado às práticas artísticas efêmeras e instalativas, num contexto de desconstrução das estruturas de cultura e arte da cidade de Porto Alegre(1). Elas foram um lugar para se pensar alto e compartilhar com um público, muito além do observador ou do mero participante, sem a menor dúvida, um público qualitativo. Um espaço vivo em permanente formação, governado pela urgência da adaptação e subsistência. A Península é esse lugar de resistência e de reexistência, resistente também às rotulações dos que precisam de escaninhos e nomenclaturas para entender ou perceber esses contra-espaços(2) de onde brota a arte, essa arte gasosa(3), focada na experiência, na troca e no encontro.

 

O programa se estruturou não somente como uma maneira de perceber e pensar a performance como um lugar político e poético, mas principalmente como um espaço-tempo de compartilhamentos, como um lugar de provas, de incertezas... Experimental.

 

Me lembro perfeitamente da primeira noite do PPPP, uma noite fria e limpa com luar, quando Carina Sehn propôs uma celebração ao redor da fogueira, no jardim da Península, para receber a amiga Elen Braga, com sopa preparada pela It, velas e muito vinho. E depois cerveja trazida pelos Etcetera, convidados de última hora que vieram aquecer esse encontro. Um gesto ancestral... Fogo, vinho e conversa. Apesar do início tão acolhedor, a residência compartilhada de Carina e Elen discutiu e refletiu sobre o Trabalho. No campo da arte esse assunto possui contornos muito específicos – o axioma arte e vida – tornando o fazer, o pensar, o viver num ato contínuo, em trabalho ininterrupto. Rompe a agenda, nubla os dias da semana e se espalha como gás, confundindo-se com o oxigênio.

 

Pensar a prática artística no momento em que ela ocorre não exige afastamento, mas uma aproximação melada, viscosa, açurada como nas colagens sonoras e textuais da Festa Profunda, residência dos artistas Marion Velasco, Liana Padilha e Bruno Mendonça, que usaram o tempo e o espaço da galeria para discutirem sociabilidade, intimidade e calor humano. Não se escuta uma música que se gosta de longe, se escuta de perto. Sente-se essa vibração, energia, parecida com sexo, tom da própria vida. Sentir o som e explicar como ele nos afeta, outra tarefa subjetiva. Como subjetivos são os esforços de se definir a nossa existência.

 

“Mas o que pode ser dito sobre as Artes Visuais na ordem do patriarcado que privilegia a visão em relação aos outros sentidos?”(4)

Essa pergunta me leva a residência compartilhada da eterna parceira Andressa Cantergiani com a Cibelle Cavalli, uma residência que transformou a galeria em um espaço de jogo e bate-papo cabeça quente. As artistas promoveram jogos de Xanastras nos quais abordavam temas complexos como as discussões sobre gênero, as desconstruções de posições tradicionais ligadas a heteronormatividade, desprogramação das relações hierárquicas e centralizadas, sem se esquecerem do autocuidado, tão negligenciado em nosso cotidiano instantâneo e de atividades simultâneas.

 

Encontrei a Cibelle pela primeira vez durante a marcha 8M de 2017, as artistas pareciam em transe segurando cartazes e marchando pelas ruas de Porto Alegre de topless, confrontando a fixidez do discurso patriarcal(5) -religioso. Desmistificar o corpo feminimo, prosseguir no longo processo de desconstrução da feminilidade (promovida pelo patriarcado) que objetifica o corpo e que subjulga a fêmea, trabalhar por novas imagens que revisem essa feminilidade e que promovam a equidade entre corpos, essas eram algumas das bandeiras, e parte dos gritos de guerra dessa marcha que prometia também uma greve internacional da mulher, ou um dia sem mulheres, pois elas estariam todas nas ruas de peitos nus. Ao colocarem a manifestação, a experimentação e o encontro acima da representação, as artistas trouxeram as preocupações da vida e do teatro da resistência eletrônica(6) para dentro da galeria Península, comentando com vivacidade o nosso atual contexto histórico de regresso e conservadorismo.

E por fim, as artistas Carla Borba e Rubiane Maia abandonaram a galeria e foram viver uma residência em movimento, percorrendo a estreita faixa litorânea da Lagoa dos Patos, uma região que nunca visitei, mas que já percorri nas linhas dos relatos e ficções do Areal(7) . A comunicação entre as artistas e a galeria Península estabeleceu-se através de cartas, e o sopro e o som do vento deflagraram um cotidiano de visões, sensações e poesia. O vento trouxe também muita areia que ao final da residência veio integrar, em conjunto com uma rosa dos ventos, a performance duracional apresentada num sábado ensolarado.

 

Estou a ponto de concluir e percebo agora que passei todo o meu tempo relatando os processos das residências artísticas e não descrevi ou comentei nenhum dos vídeos, objetos ou proposições desta exposição. Talvez este texto seja a minha resposta as inúmeras perguntas propostas pela Andressa na abertura do catálogo. Toda boa pergunta tem múltiplas respostas. “E existem sempre respostas satisfatórias para todas as questões. Mas não sei se vocês entendem quão pouco se pode aprender com elas. As perguntas são muito mais reveladoras de quem as faz do que as minhas respostas seriam sobre mim.”(8)

 

Denis Rodriguez

1 Não estou mencionando aqui apenas o colapso dos financiamentos públicos, em âmbito municipal e estadual, acompanhando o desmanche federal. Em âmbito estadual a situação demonstra-se mais crítica diante da extinção da Secretaria Estadual de Cultura, que em 2016 foi amalgamada às secretarias de Esportes e Turismo.

2 Os contra-espaços são os que se opõem a todos os demais e que de alguma maneira estão destinados a contestar, compensar, neutralizar ou purificar os espaços ao redor com que se relacionam, em outras palavras, a noção de heterotopia proposta por Foucault.

3 Michaud, Yves. El Arte en Estado Gaseoso. Fondo de Cultura Econômica: Mexico, 2007.

4 Owens, Craig. Beyond Recognition. Representation, Power and Culture. Universidade da California: Berkeley, 1992. (Tradução do autor).

5 "Um aspecto importante do discurso colonial é sua dependência do conceito de fixidez na construção ideológica da alteridade. A fixidez, como signo da diferença cultural/histórica/racial no discurso do colonialismo, é um modo de representação paradoxal: conota rigidez e ordem imutável como também desordem, degeneração e repetição demoníaca."  Bhabha, Homi. O Local da Cultura. Capítulo III. UFMG: Belo Horizonte, 2014.

6 "[...] a fantasia do potencial de resistência das atuações artísticas em rede frente ao sistema capitalista hegemônico. O mero uso instrumental da internet como plataforma de difusão de atividades que se realizam fora da rede, no espaço social. Podemos descrever essa forma de utilização como uma mera 'informatização' dos movimentos sociais, sendo o seu uso similar ao que pode fazer outro tipo de instrumento de propaganda, desde um panfleto impresso, uma revista ou um jornal militante. A internet possui algumas vantagens diante das outras mídias (maior economia de recursos, maior alcance potencial de leitores), mas também algumas desvantagens, sua limitação de alcance aos receptores a priori interessados." Brea, Jose Luis. Erapost.Casa: Salamanca, Espanha, 2002. (Tradução do autor)

7 projeto de Maria Helena Bernardes e André Severo que se define como uma ação de arte contemporânea deslocada que aposta em situações transitórias capazes de desvincular a ocorrência do pensamento dos grandes centros urbanos e de suas instituições culturais.

8  livre transcrição do diálogo entre o xamã beduíno e Mr. Locke em"Profissão:Repórter",

de Antonioni, 1975.

 

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