I N F I L T R A Ç Ã O

Laurencia Strauss

5 a 21 de abril de 2016

 

As regras estavam claras. Passaríamos 21 dias juntos com a condição de um canvas branco, chegada a Porto Alegre sem obras e sem plano pronto. Meu convite foi para uma observação direta do espaço galeria Península e seu entorno. Laurencia Strauss seria a testemunha de nossa atualidade. Atuaria como uma etnóloga, pois seria aquela que se encontra em algum lugar (seu aqui do momento) e descreveria aquilo que observa e escuta, se possível através de novos trabalhos para uma exposição individual.

 

Laurencia participa da quarta edição do programa de residências da galeria Península. Nosso objetivo é aproximar artistas de diferentes latitudes para práticas contemporâneas não orientadas ao mercado, dispostos a reagir às nossas questões locais. Formando assim uma rede internacional de atuação, que dá visibilidade às produções performativas, efêmeras, delineadas pelo contexto, privilegiando encontros a obras.

 

Mestre em Landscape Architecture pela Rhode Island School of Design, em Providence, Estados Unidos. Laurencia Strauss, norte-americana, residente em Miami, investiga a dinâmica de poder em nossas interdependências. Com táticas relacionais ligadas ao campo social e ambiental, ela interage com as pessoas, despertando-as para as questões ligadas a paisagem. E cria experiências que jogam com as nossas vulnerabilidades e criatividades.

 

Para o olhar estrangeiro e me incluo nesse grupo, o muro da Mauá é uma aberração urbanística. Não há sentido nessa separação, o mundo moderno dispõe de tantas soluções para se evitar enchentes. Também não é uma questão de capital disponível, vide a recente revitalização da orla do Guaíba, trecho 1, onde serão investidos 60 milhões de reais. Por que então dar as costas ao ponto fulcral da cidade, a sua origem? Por que não tirar partido dessa privilegiada situação geográfica, uma confluência histórica, a principal rota de navegação meridional do século XIX, excetuado o Rio da Prata? Um lugar com uma paisagem ainda preservada, natural, esse ponto de encontro entre a Lagoa dos Patos e o delta do Rio Jacuí. E o pior, por que a impossibilidade de se desfrutar desse antigo porto? Por que não é possível acessá-lo? Todos que por necessidade ou curiosidade utilizam o CatSul, observam o lindo pier Mauá trancado, como um bandido perigoso.

 

“Não imaginava que a situação era tão dramática, sempre pensei que haveria algum acesso a água, inclusive eu trouxe um maiô para nadar em algum momento da residência”, explica Laurencia. E prossegue: “Uma cidade construída para se beneficiar da água e hoje desorientada, sem relação com a água que no passado foi o motivo de sua localização.”

 

Laurencia decide trabalhar com dois elementos: o barco e o aterro. E começa a mapear o antigo contorno da cidade e os seus inúmeros trapiches de acesso a Rua da Praia, uma cidade outrora propensa a canais e permeável a água do que a construção de avenidas e ruas.

 

A partir dessa pesquisa surge a ação “onde está a água?”, onde a artista munida de um mapa antigo de 1840, portanto anterior aos aterros da cidade, e de um barquinho de Iemanjá com uma refeição do Mc Donalds dentro, percorre a Rua da Praia objetivando a entrega da oferenda ao rio. Ao fundir dois símbolos: um religioso local – os barquinhos de oferenda vendidos no mercado público, e o outro, global, imperialista, ligado a sua própria cultura, Laurencia nos dá um curto-circuito cognitivo. Nessa substituição de comidas perpassa também a indagação sobre o risco e as delícias de uma experiência nova e local, em relação a uma sabida e segura, a experiência de um não-lugar1. Na exposição, a artista apresenta o vídeo, ainda em processo, resultado da ação.

 

Ao descobrir a exata localização dos antigos trapiches do centro histórico, a artista decide atracar pequenos barcos nesses lugares, reivindicando a água soterrada pelo controle e contenção do homem. Assim surge a série fotográfica: “this is water”. Em português, “isso é água”, onde a artista se indaga: “Não seria mais fácil trabalhar o ecossistema natural das águas do que investir tantos esforços e dinheiro para dicar as vazões máximas do rio que acontecem esporadicamente?”.

 

Numa espécie de arqueologia do futuro, a instalação “memória da água” apresenta duas quadrículas no espaço central da galeria. Ao encapar múltiplos objetos para simular um aterro, Laurencia busca destacar as maneiras como nos relacionamos com a arquitetura, o urbanismo, os objetos e o ambiente que nos cerca e como essas escolhas manipulam o espaço urbano e ditam a nossa experiência com a cidade. Ao fazer emergir dois aterros prateados, reluzentes, existe a vontade de eclipsar nossos modelos de desenvolvimento econômico, cultural e até mesmo os valores estéticos vigentes. Ao reutilizar objetos descartados pelas ruas de Porto Alegre e objetos fora de uso encontrados na galeria, a artista não está preocupada na ressignificação desses objetos frente ao cubo branco, tampouco em convertê-los em obras disponíveis para o mercado da arte, mas sim interessada na irremediável situação dessas embalagens e bens descartáveis: a do abandono, do desperdício, da destruição e contaminação.

 

Denis Rodriguez

 

 

1 O não-lugar é diametralmente oposto ao lar, à residência, ao espaço personalizado, a tudo que tem essência única com validade local, regional. O não-lugar é representado pelos aeroportos, rodoviárias, estações de metrô, postos de gasolina, dinheiro eletrônico, pelas grandes corporações transnacionais, pelas cadeias de hotéis, supermercados e farmácias. AUGÉ, Marc. Não-lugares. Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: ed. Papirus, 2007.