D.O.S.

Bárbara Kaplan e Mariano Dal Verme

17 de novembro de 2015 a 11 de março de 2016

 


 

O programa de residências artísticas da galeria Península traz a Porto Alegre os artistas argentinos Bárbara Kaplan e Mariano Dal Verme. Uma das formas mais características de apoio e incentivo da produção artística no mundo contemporâneo, a residência artística é um espaço de trocas permanentes, de participação na cena artística local e uma forma de dinamização e circulação de informação e conhecimento. 

No início de abril de 2015, Buenos Aires parecia uma cidade deserta. Nesses últimos dias de calor, greve geral e feriado nacional encontrei acidentalmente os artistas Bárbara Kaplan e Mariano Dal Verme na entrada de um ateliê coletivo, localizado no bairro de Villa Crespo, bem em cima da galeria Document Art. Ao subir para visitar o espaço dos artistas, as obras expostas nas paredes do fundo prenderam de imediato a minha atenção, trabalhos de forte geometria, que me causaram uma perturbação ótica. Ao me aproximar, o que parecia desenho, era na verdade escultura. E o que parecia uma pintura concretista eram quadros de cera de abelhas com massa de modelar colorida. Obras sutis e delicadas que clamavam por uma aguda observação dos detalhes. Felizmente todos esses trabalhos pertenciam aos artistas e, bem abaixo e ao lado dessas obras, encontravam-se as mesas de trabalho de Mariano e Bárbara.

Juntos desde 2004, os artistas compartilham a vida doméstica e o ateliê. O rigor geométrico, os efeitos ópticos e o perfeccionismo formal são denominadores comuns na poética de cada um deles. Em 2007 realizaram em conjunto a instalação “Fiesta” no Centro Cultural da Espanha em Buenos Aires. A instalação, composta por luzes e música, mas sem convidados, celebrou a união civil do casal. E é aqui em Porto Alegre que pela primeira vez, eles realizarão uma exposição conjunta, uma exposição de dois.

D.O.S., dois em espanhol, é também a sigla em inglês para Disk Operation System. Nas palavras de Bárbara Kaplan, “... queremos que a mostra seja vista como uma unidade, que haja relação entre as nossas obras individuais e com as instalações que produziremos ai em conjunto. Estamos totalmente abertos para que novas obras surjam durante a residência, afinal não é para isso que as residências artísticas existem? Algumas obras têm um tom irônico e esse é o clima que queremos para a exposição, e até por isso decidimos pelo título D.O.S., um sistema operacional obsoleto.”

Bárbara apresentará a série “valor de cinza”, composta por desenhos cujo o objetivo é a busca de padrões visuais a partir de sequências numéricas. Esse trabalho possui 12.549 números manuscritos de 1, 2, 3 ou mais numerais dentro de uma quadrícula. Os números estão organizados de uma maneira em que um mesmo numeral se repete nas diagonais, formando depressões concêntricas. É a ordem dada a cada numeral e a sua repetição que produzem o efeito visual. A característica óptica desses desenhos fazem com que o espectador se aproxime e então perceba surpreso a enorme quantidade de numerais anotados e a partir daí tente buscar uma solução para o enigma matemático apresentado. Nas palavras do artista Eduardo Stupia, “Bárbara Kaplan sustenta em sua trajetória uma programática amálgama conceitual, que pode ser resumida como um equilíbrio perfeito entre as ressonâncias da racionalidade científica e a vocação poética.” Bárbara trará também sua célebre série “natureza morta”produzida com quadros de apicultura e massa de modelar, trabalhos que tornaram seu nome conhecido na Argentina e internacionalmente.

Já as obras de Mariano são um delicado cruzamento entre o desenho e a escultura. Com forte efeito óptico, seus desenhos levantam-se da folha e assumem materialidade própria em nosso mundo tridimensional. Essas estruturas espaciais são compostas de dezenas de grafites colados uns aos outros, trabalhos feitos com grafite e não grafite sobre papel. Mariano trará também sua série “fade in” e ação solar sobre papel, trabalhos que incorporam a dimensão temporal, é a ação do tempo que revela magicamente figuras e linhas. Nesses desenhos produzidos com ácido cítrico e expostos a luz, a obra segue viva e dinâmica se transformando aos olhos do espectador.

Denis Rodriguez