ÁGUA VIVA

Denis Rodriguez

curadoria: Mônica Hoff

27 de junho - 19 de setembro de 2015

 

um rio é um lote de água viva

por Mônica Hoff

 

 

Toda cidade tem uma porção de água que lhe conforma - seja um açude, um rio, um lago, ou um pedaço de mar.  Por sua vez, toda porção de água é um convite a que novas formas de vida tomem forma - sejam elas biológicas, sociais ou culturais.  Na natureza, poucas distâncias afastam o indene do mediado. Não há mais qualquer zona incólume, mesmo que intocada. Como afirmara Certeau, todo ‘lugar é um espaço praticado’.

 

Assim, é um rio - uma quantidade absurda de água que vai de um lugar a outro, carregando memórias e gerando afetos, constantemente transbordando de si. Perene ou não, um rio carrega infinitas funções - é responsável por boa parte da organização de uma comunidade: abastece, transporta, purifica, informa, suporta, diverte. Ou, pelo menos, deveria.

 

Um rio pode também ser um lago, ter dupla identidade, ser, ao mesmo tempo, navegável e impróprio, profundo e raso, pantanoso ou formado por todas as águas, tal Gua-ybe[1]. Um rio é, sem dúvida, um atraente lote de água viva.

 

Foi essa porção inexata de vida - das águas que banham Porto Alegre - e suas verdades paradoxais que convocaram o artista Denis Rodriguez a atirar-se sem proteção nos modos como nos relacionamos e desejamos estas águas.

 

De pronto, perguntas como - qual foi a última vez que você se banhou no Guaíba? quando será a próxima? e se fizéssemos isso juntos? - desencadearam uma série de processos de pensamento e trabalho (uma oportunidade crítica, por certo) que excederam suas intrínsecas qualidades estéticas para lançarem-se no vão de uma espécie de ética do desejo, tal qual pressupunha Lacan. Ou seja, de que somos responsáveis por tudo que desejamos - seja esse desejo consciente ou não.

 

Água-viva, a exposição, é um estudo incansável e aberto sobre as formas de materializar este desejo - individual e, também, coletivamente. Organizada como uma espécie de arquivo submerso, a mostra se apresenta em dois tomos. O primeiro, integralmente performado por Rodriguez, é composto por mapas, cartas náuticas, desenhos, colagens, pinturas e registros ordinários de hoje e de ontem, que produzem, através de estratégias ora poéticas ora críticas, um redemoinho cognitivo em nossas noções sobre as relações entre público e privado; natureza e cultura; direitos e deveres; balneável e impróprio; navegável para que(m)?

 

O segundo, ao mesmo tempo uma estratégia ativadora e uma espécie de dispositivo de interlocução disparador do próprio processo do artista, organiza-se como uma colaboração com quatro arquitetos e um escritor. Convidados a pensarem soluções para os impedimentos políticos, culturais e institucionais que distanciam a comunidade de Porto Alegre de suas águas, Nathalia Cantergiani + Daniel Galera,  Marina Portolano + Carol Tonetti e Alberto Gomez atravessam o pensamento de Rodriguez, e também o espaço expositivo, com proposições práticas para uma relação possível - uma piscina pública, uma plataforma que subverte os muros do centro da cidade, um trampolim.

 

Água-viva é, assim, um exercício ininterrupto, e portanto inacabável, de reconstrução cultural e política dos sentidos deste lugar e das relações por ele conformadas. Realocar o futuro no presente a partir do passado, ativar memórias em novos  desejos, navegar na esperança de banhar-se outra vez, banhar-se sem mais, ou ainda e apenas desejar (porque este é um direito e um prazer), é o lugar que Denis Rodriguez, através de sua Água-viva, pretende negociar com a comunidade de Porto Alegre.

 

[1] Guaíba é uma palavra de origem tupi e pode significar tanto “pântano profundo” (gwa, "seio", í, "água" e be, "em"), como “baía de todas as águas (Gua-ybe).